Sociedade Polônica Rui Barbosa - 95 anos de História
Entidade erechinense preserva a cultura polonesa na região Alto Uruguai
Uma das entidades polonesas mais longevas do estado, a Sociedade Polônica Rui Barbosa de Erechim, reafirma o seu papel na preservação das raízes e da Cultura Polonesa no Rio Grande do Sul.
A chegada dos imigrantes poloneses na grande Colônia Erechim, resultou em forte impacto no desenvolvimento, na cultura, nos costumes e na culinária da região e que perdura até hoje.
Os poloneses já habitavam o Rio Grande do Sul, nas chamadas terras velhas, principalmente na antiga Colônia de São Marcos, encosta superior do Nordeste do Estado, na região da Serra Gaúcha. A região já havia sido colonizada pelos Italianos, e os poloneses sentiram a dificuldade de cultivo em terras montanhosas.
Possuindo habilidades para a exploração da mata, habituados ao clima gaúcho, e com alguns recursos em posse destas famílias, aventuraram-se a desbravar as ‘‘terras novas’’, na Colônia Erechim, onde hoje encontra-se a região Alto Uruguai.
Stawinski afirma: ‘‘A organização dos novos núcleos de colonos poloneses obedecia, no fundamental, ao mesmo processo seguido nas velhas colônias. Cada comunidade composta de 30 a 40 famílias obrigava-se a construir uma capela e uma escola. O engenheiro Longines Malinowski, membro da Comissão de Terras da Colônia Erechim, afirmou que, a partir de 1908 até 1922, se fixaram na região Alto Uruguai 7.178 famílias polonesas, somando 42.000 pessoas’’.de Cotegipe, Gaurama, Viadutos, Erval grande, Marcelino Ramos e Aratiba.
No período da primeira guerra mundial (1914-1918), emigraram poloneses ao Rio Grande do Sul, sendo que inúmeros destes imigrantes chegaram à Colônia Erechim. Os imigrantes ou migrantes poloneses abriram inúmeras escolas nas diversas localidades da região.
Erechim completaria 13 anos de sua emancipação, em 1931, quando em 12 de abril daquele ano, um grupo de poloneses foram determinantes para a criação e fundação da Sociedade Polonesa, a qual primeiramente foi registrada como Sociedade Nicolau Copérnico.
A primeira sede provisória estava localizada na Rua Pernambuco, em frente à empresa Madalozzo. Ainda, a Sociedade recebeu 3 lotes da prefeitura, os quais foram vendidos para a aquisição de um lote com casa na Rua Itália, de uma Sociedade conhecida como Waldes Gruss. Por anos a sede da Sociedade Polonesa funcionou neste endereço, mantendo-se com sócios e contribuintes regulares.
Com as obras da prefeitura para calçar a rua, tendo a mesma feito muitos metros de aterro, e com a precariedade do local, a mesma foi vendida para a compra de um novo terreno que possuía um galpão velho, onde encontra-se a atual Sede Polônica na Rua Henrique Schwering.
Não por acaso, a Sede está defronte à Igreja São Pedro, onde a comunidade polonesa, muito religiosa na fé católica, realiza diversos eventos, missas e encontros da etnia ao longo de sua história, como a missa de benção dos ramos e dos alimentos, tradição polonesa de Páscoa.
Em 1936 começa a campanha para a construção da nova sede da Sociedade, através das famílias polonesas, lideradas pelo presidente Casemiro Mokwa.
Com o nacionalismo do Presidente Getúlio Vargas, a Sociedade passa a se chamar Sociedade Instrutiva e Recreativa Rui Barbosa. O nome Rui Barbosa foi escolhido em homenagem ao renomado jurista, político e diplomata brasileiro, apelidado de "Águia de Haia" por sua atuação na II Conferência de Paz de Haia em 1907, onde defendeu a igualdade entre as nações e a independência da Polônia.
A pedra fundamental foi lançada com a presença do Governador do Estado Walter Jobim e do então Prefeito Ângelo Emílio Grando. A diretoria solicitou uma ajuda financeira ao Governador, o qual atendeu o pedido, destinando cerca de 50 pinheiros da área pertencente ao Estado, localizada em Cacique Doble. A serraria do Sr. Boleslau Zamecki ficava próxima ao local, o qual propôs a troca dos pinheiros por madeira beneficiada, além da doação da instalação elétrica. O marceneiro Stanislau Szynkaruk produziu as portas e janelas como oferta e doação.

Lançamento da Pedra Fundamental da Sociedade Rui Barbosa. Na foto: Padre Tadeu Wyzikowski, Dr. Walter Jobim (Governador do Estado), Dr. Júlio Costamilan Rosa
A preparação para a construção contou com o lançamento do Livro Ouro, para arrecadar recursos, além de empréstimo entre os associados e simpatizantes.
Muitos auxiliaram na construção da nova sede, entre eles: Padre Tadeu Wyzykoski, Boleslau Zamecki, Leão Wesoloski, Francisco Pogorzelski, José Mikulski, José Dionísio Mokwa, Casemiro Mokwa, Boleslau Strzelecki, Boleslau Lisakowski, André Wypych, Nicolau Groch, Longines Malinowski, Romano Skorupski, Boleslau Skorupski, Stanislau Szynkaruk, Pedro Czarnobai, Antônio Kalinski, Rodrigo Magalhães dos Santos, João Skrzypek, Casemiro Kujawinski, Wladislau Krempinski, Waldomiro Amado, Conrado Nasiloski, João Malysz, Leonardo Górski, Estevão Wenclewski, Zenon Filla, Segismundo Biegai, Félix Filla, Leonardo Kecner, José Wawruk, Adão Tyburski, Armando Kotkiewicz, Pedro Karasek, Antonia Malinowski, Wanda Gurski, Maria Groch, Vitória Kasarerk, José Gurski entre outras famílias.
A Sociedade Polonesa de Gaurama também teve grande participação na construção da nova sede. Como já encontrava-se desativada, realizou a venda de seus bens e fez a doação do valor arrecadado, além de incorporar seus sócios na Sociedade Rui Barbosa.

Elmir Cibulski em frente ao Clube da Sociedade Rui Barbosa em construção.
A Sociedade da Escola Polonesa de Linha-Gramado, desativa pela Prefeitura com a construção de outras duas escolas próximas, também incorporou seus sócios e vendeu a casa da escola desativada, doando o valor para a construção da nova sede da Sociedade Rui Barbosa.
No início de novembro de 1969, o Padre Walenty Nowacki, fundador do Grupo Jupem, visitou a redação do jornal A Voz da Serra. O objetivo era convidar à direção do periódico, representada pelos senhores Estevam e Gilson Carraro, para uma homenagem que a Sociedade Rui Barbosa prestaria no dia 9 daquele mês.

Padre Walenty Nowacki com o Grupo JUPEM
Conforme o convite divulgado na capa do Jornal A Voz da Serra, em 6 de novembro de 1969, a celebração teve início às 17 horas com uma missa na Igreja São Pedro. Após a celebração religiosa, as festividades tiveram continuidade com um show artístico, que encantou o público e celebrou a cultura polonesa. Este permanece como um dos primeiros registros de uma apresentação oficial do Grupo Jupem, fundado em 6 de maio de 1968 pelo Padre Walenty Nowacki e pela Irmã Wanda Szymla.
Em 25 de julho de 1981, dia do Colono, a Sociedade Rui Barbosa recebia a visita do Cônsul da Polônia Wladyslaw Sytek. Recepcionado com um jantar na sede da Sociedade, o Cônsul realizou a entrega de medalhas e diplomas de Honra ao Mérito, conferidas pela Sociedade Polônia, de Varsóvia, por serviços prestados ao desenvolvimento cultural e boas relações entre os brasileiros e poloneses imigrantes e seus descendentes.
Os homenageados foram: Adão Kosloski, Adolfo Groch, Arcenio Wencleski, Boleslau Skorupski, Floriano Rogalski, Jerônimo Navroski, Nestor Leomar Lipniarski, Tadeu Trazcinski, Longin Lipniarski e Rodrigo Magalhães.

1981- visita do Cônsul da Polônia Wladyslaw Sytek
A saudação ao Cônsul foi realizada pelo Dr. Elidio Cervo, com homenagem ao Dia do Imigrante e Colono, seguido pelo discurso do Presidente da Sociedade Rui Barbosa, Longin Lipniarski. A festa continuou, sob a regência do maestro João Kuchta, onde o Coral da Sociedade Rui Barbosa apresentou canções polonesas e brasileiras, que abrilhantaram a festa.
Ao longo dos anos, o espaço sediou diversos eventos, como festas, jantares típicos, bailes e exibições de cinema polonês. Além disso, abrigou cursos de culinária, artesanato, tradições e língua polonesa, bem como palestras e recepções de autoridades civis e religiosas. A sede consolidou-se, ainda, como um importante ponto de diplomacia e intercâmbio cultural, recebendo frequentemente o Cônsul da Polônia no Brasil, Embaixadores e autoridades do Governo da Polônia.
Para chegar aos 95 anos, a Sociedade Polonesa de Erechim, atravessou e superou diversos momentos e desafios.
Em 1988, o Grupo Jupem realizava seus ensaios na Escola de Belas Artes e, enquanto o grupo não estava abrigado na sede polonesa, mantinha uma casa alugada para salvaguardar seu acervo de trajes. Uma das primeiras ações do então Presidente Nilton Groch, foi a unificação dos poloneses, integrando todos os grupos polônicos à sede da Sociedade Rui Barbosa.

Em 2025, é realizada uma nova reformulação da Sociedade, passando a entidade denominar-se 'Sociedade Polônica Rui Barbosa'. Com a renovação da diretoria, a gestão atual tem à frente Sergio Gajosz como Presidente e Ewa Kaplan Vice-presidente.
Atualmente, a Sede da Etnia Polonesa abriga o C.L.C.P - Centro de Língua e Cultura Polonesa Prof. Geraldo Augusto Gorski (CLCP), que oferece aulas de polonês com professor nativo; o Grupo Folclórico Polonês de Erechim - JUPEM; o Grupo de Canto do C.L.C.P (anterior Stare i Wesoły Wiarusy - “Velhos e Alegres Batalhadores”); e o Grupo da Melhor Idade da Sociedade Polônica Rui Barbosa, que promove encontros semanais com atividades e momentos de convivência para o público sênior.
No final da tarde de domingo, 23 de novembro de 2025, por volta das 16h40, Erechim presenciou o mais severo temporal de granizo de sua história. Com duração aproximada de 20 minutos, o fenômeno foi considerado a maior tragédia climática já registrada no município.
Parte do telhado da Sociedade foi severamente atingida, afetando diretamente as salas que abrigam o acervo de trajes do Grupo Jupem e o Centro de Língua e Cultura Polonesa Geraldo Gorski.
Diante do prejuízo, a comunidade polonesa mobilizou-se rapidamente. Uma campanha liderada pelos Grupos Polônicos arrecadou recursos via pix, recebendo o apoio de famílias e entidades de diversas partes do Brasil e do exterior, como de Grupos Folclóricos sediados na Polônia.
Com os valores arrecadados, a Sociedade não apenas instalou um novo telhado, como também realizou melhorias internas, reparos e pintura. A adversidade serviu para demonstrar, mais uma vez, a união dos descendentes e a forte cooperação entre os grupos brasileiros e poloneses.

Com uma história quase centenária, a Sociedade Polônica Rui Barbosa de Erechim torna-se referência e prova viva de que a manutenção da cultura e de suas tradições é, em grande parte, fruto do trabalho voluntário realizado por muitas mãos. Esse legado é sustentado pelo orgulho de pertencer a um grupo étnico — seja pelas raízes dos antepassados ou pela paixão que a cultura cativa em pessoas sem descendência — e pela perspicácia de pessoas proativas, que mantêm a esperança e o amor em cada ação dedicada à cultura polonesa.
Visto que uma matéria jornalística raramente esgota a totalidade dos fatos, diversos registros ainda carecem de pesquisa e exploração. Afinal, trata-se de uma das mais longevas sociedades polônicas constituídas em Erechim e no Rio Grande do Sul, que procura manter a integração entre todas as Etnias.
Por Adriel Ferreira – Jornalista MT 0018482/RS
Escritor, Pesquisador, Produtor Cultural, Graduado em Marketing - Uri - Campus Erechim.
Técnico Radialista Locutor Senac-RS.
Referências: Neusa Cidade Garcez – Colonização e Imigração em Erechim. A Saga das Famílias Polonesas. Iraci José Marin – Imigrantes Poloneses Afundados Num Mar Italiano. Arquivo Histórico de Erechim - Juarez Miguel Illa Font - Registros: Jornal A Voz da Serra - Arquivo Histórico de Erechim - Juarez Miguel Illa Font, Adriel Ferreira, Acervo Grupo JUPEM. Contribuição e Revisão: Maria Vanda Krepinski Groch.













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