Escritório de Passo Fundo é alvo em investigação que apura fraude milionária contra idosos
Investigação do MPSC aponta que uma quadrilha oferecia ações revisionais de contratos bancários, mas repassava menos de 10% dos valores liberados judicialmente
Uma operação coordenada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) colocou um escritório de Passo Fundo na investigação de um esquema interestadual de estelionato contra idosos. Na terça-feira (22), o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) deflagrou a Operação "Entre Lobos", que cumpriu 13 mandados de prisão e 35 de busca e apreensão em cinco estados brasileiros. Entre os alvos, está um escritório de advocacia localizado em Passo Fundo, suspeito de integrar a estrutura de uma organização criminosa que teria lesado mais de mil pessoas em diversas regiões do país.
Segundo o MPSC, a operação também resultou na apreensão de 25 veículos e no bloqueio de até R$ 32 milhões em contas bancárias de 13 investigados e três empresas.
A atuação no Rio Grande do Sul incluiu ainda uma prisão no município de Planalto, onde um suspeito natural de Santa Catarina foi abordado pelas autoridades enquanto se deslocava pelo estado.
O esquema
As investigações começaram há quase um ano, a partir de denúncias sobre a exploração financeira de aposentados e pessoas em situação de vulnerabilidade. De acordo com o MPSC, a quadrilha se organizava por meio de escritórios de advocacia e empresas de fachada para oferecer ações revisionais de contratos bancários às vítimas, com promessas de restituição de valores.
Após ajuizar as ações, geralmente sem que os clientes compreendessem a extensão dos processos, os investigados induziam as vítimas a assinar contratos de cessão de crédito judicial. Esses contratos transferiam os direitos das indenizações para empresas ligadas ao grupo. No entanto, os valores pagos às vítimas eram irrisórios se comparados aos montantes liberados judicialmente. Em um dos casos, uma vítima com direito a R$ 146 mil recebeu apenas R$ 2,5 mil — o equivalente a 1,71% do valor. Situações semelhantes se repetem ao longo da investigação: outra pessoa com R$ 117 mil a receber, recebeu apenas R$ 2,5 mil (2,12%), e uma terceira, com crédito de R$ 115 mil, obteve R$ 2 mil (1,73%).
Os investigadores apontam que, no total, foram liberados pela Justiça mais de R$ 6 milhões em nome das vítimas, mas apenas cerca de R$ 595 mil foram efetivamente pagos a elas, o que representa menos de 10% do valor devido. O restante teria sido apropriado indevidamente pelo grupo criminoso.
Ligação com Passo Fundo
A partir do desdobramento da investigação, um dos mandados de busca e apreensão foi cumprido em um escritório de advocacia de Passo Fundo, suspeito de ser uma ramificação da quadrilha. As autoridades não detalharam qual o papel exato do escritório no esquema, mas confirmaram que há indícios de sua participação. O material recolhido será analisado para aprofundar a ligação com os demais núcleos da organização.
Estrutura criminosa e atuação nacional
A operação revelou um esquema sofisticado, com utilização de estruturas jurídicas para dar aparência de legalidade às ações. As empresas de fachada eram utilizadas tanto para adquirir créditos judiciais quanto para se distanciar de questionamentos das vítimas. Como os créditos passavam a estar formalmente em nome dessas empresas, as vítimas eram instruídas a procurar tais entidades em caso de dúvidas — o que dificultava o rastreamento direto dos responsáveis.
A investigação também apontou indícios do crime de patrocínio infiel, quando advogados atuam em conflito de interesses com seus próprios clientes. Ao mesmo tempo em que ajuizavam as ações, os profissionais estariam beneficiando financeiramente as empresas do grupo, ferindo diretamente a ética da advocacia.
Segundo o Ministério Público, o grupo atuava principalmente em Santa Catarina, Ceará, Alagoas e Rio Grande do Sul, mas havia expansão para o Paraná, São Paulo e outros estados. A captação de vítimas se dava presencialmente, por telefone ou por meio de.
Impacto e orientação às vítimas
O impacto social do esquema é significativo. As vítimas têm, em média, 69 anos de idade, e muitas foram ludibriadas em momentos de fragilidade. O Ministério Público alerta que há cerca de 215 vítimas formalmente identificadas, mas estima que mais de mil pessoas possam ter sido lesadas.
As pessoas que suspeitam ter sido vítimas do esquema devem procurar a Delegacia de Polícia mais próxima para registrar um boletim de ocorrência, ou ainda entrar em contato com a Promotoria de Justiça da Comarca de Modelo (SC) ou com a Ouvidoria do Ministério Público de Santa Catarina.
O NACIONAL













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