Idosos, quedas e acidentes : o que “Quem Ama Cuida”- ensina sobre ajuda e socorro

Idosos, quedas e acidentes : o que “Quem Ama Cuida”- ensina sobre ajuda e socorro
Cena novela - Quem ama cuida

Nem toda pessoa que cai deve ser levantada na hora; movimentar de forma inadequada pode agravar fraturas e outras lesões

 

A nova novela da Globo, Quem Ama Cuida, colocou em cena um problema muito presente na rotina de milhares de famílias brasileiras: a queda de uma pessoa idosa. Embora seja uma situação aparentemente simples, esse tipo de acidente exige atenção imediata, porque a forma como a vítima é socorrida pode fazer diferença entre uma recuperação segura e uma complicação grave.

 

No capítulo exibido nesta semana, o personagem de Antônio Fagundes, um senhor com dificuldade de locomoção que usa andador, cai e é socorrido pela enfermeira interpretada por Leticia Colin. A cena chama atenção não apenas pelo enredo, mas pelo tema que expõe: saber como agir diante de uma queda é parte essencial do cuidado com idosos.

 

O impulso de levantar a pessoa rapidamente costuma ser automático. Quem está por perto quer ajudar, quer aliviar a dor e quer resolver a situação o mais rápido possível. O problema é que esse reflexo, embora bem-intencionado, pode ser perigoso. Em casos de suspeita de fratura, trauma na cabeça, dor intensa ou dificuldade para mover braços e pernas, qualquer movimentação inadequada pode agravar o quadro.

 

Segundo a fisioterapeuta, Dra. Mariana Milazzotto, esse é justamente um dos principais pontos de alerta. “A vontade de ajudar é imediata, mas nem sempre a primeira atitude correta é levantar a pessoa. Antes de qualquer movimento, é preciso observar se ela está consciente, se sente dor, se houve batida na cabeça e se consegue mexer braços e pernas sem dificuldade”, afirma.

 

Um problema frequente e subestimado

 

As quedas estão entre os acidentes mais comuns e mais graves na população idosa. Só em 2024, o Brasil registrou 179.922 internações de pessoas com 60 anos ou mais por quedas, além de 13.385 mortes associadas a esse tipo de acidente. Em recorte anterior divulgado pelo Ministério da Saúde, os primeiros oito meses de 2024 já somavam 122.195 internações e 93.518 atendimentos ambulatoriais de idosos por quedas, o que ajuda a dimensionar o tamanho do problema.

 

Esses números ajudam a explicar por que a cena da novela conversa com a realidade de tantas famílias. Em idosos, uma queda não é apenas um tropeço. Ela pode significar fratura de quadril, lesão na coluna, trauma craniano, perda de autonomia e necessidade de internação. Em alguns casos, a consequência vem não só da queda em si, mas da movimentação feita logo em seguida, sem avaliação adequada.

 

A Dra. Mariana ressalta que a situação exige leitura cuidadosa. “Nem toda queda é leve. Há casos em que a pessoa parece bem no primeiro momento, mas apresenta lesão importante que só piora quando alguém tenta colocá-la em pé ou sentá-la sem critério”, diz.

 

O que fazer primeiro

 

A orientação inicial é manter a calma e não agir por impulso. O primeiro passo é conversar com a pessoa, observar se ela responde normalmente e identificar se há dor, sangramento, tontura, confusão mental ou dificuldade para mover o corpo.

 

Se houver suspeita de fratura, trauma na cabeça, dor forte ou incapacidade de se levantar, o mais seguro é não tentar movimentar a vítima e acionar atendimento médico. O SAMU, pelo número 192, deve ser chamado quando a pessoa não consegue ficar em pé, está sonolenta, apresenta falta de ar, sangramento importante ou dor intensa em alguma região do corpo.

 

Quando a vítima está consciente, sem sinais de gravidade e sem suspeita de fratura, o auxílio pode acontecer de forma gradual e cuidadosa, sempre sem puxar pelos braços, sem forçar a coluna e sem levantar de forma brusca. Em idosos, qualquer esforço inadequado pode piorar uma lesão já existente.

 

“A primeira ajuda é observar. A segunda é proteger. Só depois, se for o caso, pensar em levantar”, resume a médica.

 

Os sinais que exigem atenção

 

Alguns sinais indicam que a queda pode ter sido mais grave do que parece:

  • dor intensa no quadril, nas costas ou na cabeça.
  • incapacidade de mexer braços ou pernas.
  • sangramento.
  • sonolência ou confusão.
  • perda de consciência.
  • dificuldade para respirar.
  • deformidade em membros.
  • suspeita de batida na cabeça.

 

Quando esses sinais aparecem, a recomendação é evitar qualquer tentativa de colocar a pessoa em pé até a avaliação profissional.

 

O erro mais comum dentro de casa

 

Na prática, a maior dificuldade costuma estar dentro da própria família. Quem presencia a queda quer agir rápido, tenta erguer a pessoa pelo braço, pede para ela sentar ou insiste para que caminhe logo em seguida. O problema é que essa pressa pode transformar uma situação controlável em um quadro mais grave.

 

Em idosos, a queda já representa um evento de risco. Se houver fratura, lesão muscular, trauma de coluna ou comprometimento neurológico, a movimentação imprópria pode piorar a dor, deslocar os ossos e atrasar a recuperação.

 

A fisioterapeuta explica que o cuidado precisa ser guiado pela avaliação dos sinais, e não pelo susto do momento. “A pressa em ajudar pode custar caro. O que parece um gesto de cuidado, sem técnica, pode aumentar muito o dano”, afirma.

 

O ponto central é simples, mas essencial: nem toda pessoa que caiu deve ser levantada na hora. Em alguns casos, o cuidado mais correto é justamente não movimentar, observar e acionar ajuda especializada.

 

A Dra. Mariana Milazzotto lembra que o envelhecimento exige mais atenção a esse tipo de acidente. “Uma queda pode parecer um evento isolado, mas em idosos ela pode marcar o início de uma perda importante de autonomia. Por isso, saber socorrer da forma correta faz toda a diferença”, diz.

Sobre a Dra. Mariana Milazzotto

Fisioterapeuta com 20 anos de atuação, mestre em Ciências Médicas e referência nacional no tratamento clínico do lipedema e na reabilitação de mulheres no pós-operatório de câncer de mama. Criadora da Jornada Desvendando o Lipedema, programa que forma fisioterapeutas e terapeutas corporais em práticas de acolhimento, movimento e reabilitação funcional.