O peso da história não paga as dívidas, por Neivo A T Fabris. Edição 23/10/2026

O peso da história não paga as dívidas, por Neivo A T Fabris. Edição 23/10/2026

O peso da história não paga as dívidas


O cooperativismo agropecuário brasileiro vive um daqueles momentos que obrigam o setor a pausa, respirar fundo e recalcular a rota. A aprovação da dissolução voluntária e o início da liquidação extrajudicial da Cotribá, a cooperativa mais antiga do país ainda em atividade, carrega um simbolismo doloroso. Não se trata apenas de uma reestruturação contábil ou jurídica, mas do abalo nas estruturas de uma instituição que, há 115 anos, ajuda a desenhar a história da produção de grãos, fornecimento de insumos e nutrição animal a partir do Rio Grande do Sul.

II - A crise que afeta a Cotribá é acompanhada com atenção e apreensão em todo o território gaúcho. O temor não é infundado, pois a memória recente do campo guarda cicatrizes profundas. Outras tantas cooperativas de peso no Estado enfrentaram severas crises financeiras e administrativas em diferentes momentos de nossa história recente. Gigantes como Cotrijuí, Copasso, Cotrigo e Cotrel, para ficar com apenas quatro exemplos emblemáticos, trilharam caminhos tortuosos de endividamento que colocaram seus associados em situação extremamente difícil e culminaram no fechamento definitivo de suas portas.

III - A decisão unânime tomada pelos 375 associados presentes na assembleia de Ibirubá, diante de um passivo declarado de 1,427 bilhão de reais, tenta justamente evitar o destino trágico de suas antigas congêneres. O movimento não deve ser lido como uma certidão de óbito imediata, mas sim como um ato de sobrevivência pragmática. Ao centralizar as negociações com uma impressionante massa de 20.614 credores e conferir poderes de liquidante ao presidente Sergio Strentzke, a cooperativa tenta criar um cordão de isolamento para estancar a crise. A proposta dá ao liquidante ferramentas duras, como renegociar débitos, contratar financiamentos e vender bens, tudo sob a fiscalização de um conselho fiscal.

IV - A estratégia de manter as operações comerciais e o atendimento aos produtores, enquanto se renegocia o bilionário montante, é o único caminho técnico viável para mitigar o impacto na cadeia local. No entanto, o otimismo burocrático esbarra na crueza dos números. Preservar a atividade econômica sob a sombra de uma liquidação é caminhar sobre o fio de uma navalha, pois a continuidade não elimina a pressão sufocante sobre o caixa. A capacidade de gerar recursos imediatos ditará se a Cotribá conseguirá reescrever seu destino e sustentar os serviços vitais ao setor ou se o seu centenário legado será consumido pela urgência das dívidas. O agro gaúcho assiste a esse desfecho sabendo que o mercado, por mais tradicional que seja a marca, não aceita desaforo orçamentário.

Curtas

#  A Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desportos (Smecd) divulgará nos próximos dias a programação da 26ª Feira do Livro de Getúlio Vargas.
# O evento literário ocorrerá entre os dias 10 e 12 de novembro no Calçadão da Praça Flores da Cunha, com abertura oficial na manhã de terça-feira.
# Esta edição terá o professor Jairo Ademar Galina como patrono e o renomado Luís Fernando Veríssimo como escritor homenageado.
# Além de bate-papo com autores, o público contará com contações de histórias, teatro, dança de rua e a apresentação da Orquestra da Apae.
# A iniciativa é uma promoção da Smecd em parceria com a Academia Getuliense de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico local.
# O município de Floriano Peixoto conquistou o Selo Bronze de Reconhecimento à Gestão Previdenciária Municipal.
# A premiação reconhece as boas práticas, o equilíbrio financeiro, a transparência e a responsabilidade na administração do Regime Próprio de Previdência Social (RPPS).
# O prefeito Jair Ostrowski (MDB) recebeu a honraria nesta semana, no Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS).
# Acompanharam o prefeito o presidente do RPPS, Tiago Sbeghen, e o gestor de investimentos, Márcio Montagner.
# Alunos do Senai Erechim (Extensão Getúlio Vargas) visitaram a Câmara de Vereadores de Getúlio Vargas na última sexta-feira (16).
#  O grupo foi recebido pelo presidente do Legislativo, Vilmar Antônio Soccol (União), e pela diretora administrativa, Cristiane Piccoli Dalapria.
# A atividade detalhou o papel do Legislativo, a rotina de trabalho da instituição e a atuação prática dos vereadores.
# Os estudantes conheceram o Plenário das Sessões Ordinárias e aprenderam como funcionam as etapas de apresentação, discussão e votação de matérias.

Dito & Feito

A demolição de um edifício histórico no início desta semana concentrou as atenções na cidade. Nas redes sociais, a profusão de fotografias e vídeos funcionou como um registro de despedida. Para este colunista, o fato carrega um peso ainda mais pessoal: o casarão foi o meu endereço durante os anos de adolescência. Observar a queda daquelas paredes significou ver desaparecer o cenário físico de uma etapa marcante da juventude.
Edificado na década de quarenta do século passado na Avenida Severiano de Almeida, bem no centro de Getúlio Vargas, o prédio de dois pavimentos seguia o estilo Art Déco, integrando-se à identidade arquitetônica do período. Daquelas janelas, a perspectiva da cidade era viva e familiar. Na esquina com a Avenida Borges de Medeiros destacavam-se o Banco da Província e a antiga Farmácia São Paulo, capitaneada por Darcy Herrerias. Na outra extremidade, no cruzamento com a Jacob Gremmelmaier, erguia-se o Edifício Natal Pavinatto. Logo à frente, a rotina diária incluía a vista para a alfaiataria do senhor Martin Lang e o movimento na quadra de futebol de salão do Banco da Província. A relevância do imóvel para a crônica local é antiga. A Monografia de Getúlio Vargas, publicada em 1952 por Léo Stumpf, Conrado Ranzolin e pelo Irmão Paulo da Cruz, já imortalizava o local em fotografia, época em que o pavimento térreo era ocupado pelo Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Com o avanço das décadas, o espaço continuou a abrigar a história comercial do município. Nos primeiros anos da década de 1970, o endereço sediou a oficina de consertos de geladeiras de Lorivan dos Santos, o conhecido Carioca. Posteriormente, abrigou a Casa de Carnes, a Sacaria Getuliense, entre outros estabelecimentos. Já no início deste século, o ponto transformou-se no Floyd Bar, do Mica, convertendo-se em um tradicional reduto de boemia e música ao vivo. Mais recentemente, o térreo foi ocupado pela Cia das Frutas, hoje estabelecida no prédio vizinho. No espaço de aproximadamente mil metros quadrados, projeta-se agora a construção de um novo edifício comercial e residencial. A cidade de Getúlio Vargas segue o seu curso natural de reinvenção e modernização. Contudo, para quem vivenciou o cotidiano daquela estrutura e daquela vizinhança, resta o registro sóbrio e respeitoso de um tempo gravado na memória.

Foi notícia há 30 anos

A edição de 18 de outubro de 1996 trazia em sua manchete de capa os preparativos para a demolição da ponte sobre o Rio Abaúna, na Rua Alexandre Bramatti. A medida integrava o cronograma de obras do plano de combate às enchentes em Getúlio Vargas. Nas páginas internas, a editoria de Região registrava a histórica visita do então governador Antônio Britto ao município de Estação. Já a página nove repercutia o sucesso do seminário promovido em parceria pela Accias e o Sebrae. No esporte, o grande destaque foi o esperado confronto entre Taguá e Novo Hamburgo, realizado no Estádio Plácido Scussel. A cobertura esportiva também trouxe o desfecho da última rodada da Taça Tabajara Guaíba e a movimentação do Campeonato de Futebol de Campo de Estação. Fechando a edição, a contracapa celebrava a pluralidade local com a cobertura da Feira do Artesanato e Alimentação de Erebango.