'Porongos' entra na reta final de filmagens no Rio Grande do Sul
Produção dirigida por Diego Müller resgata episódio histórico e dá voz aos Lanceiros Negros; ator Emílio fala sobre a experiência de viver Adão Caetano |
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As filmagens de “Porongos”, longa-metragem dirigido por Diego Müller, chegam à etapa final nesta semana. Os últimos registros acontecem em Bagé — com locações na Pousada do Sobrado e no Centro Histórico Vila de Santa Thereza — e em Aceguá, na Tapera do Hélio e na Lagoa do Assis Brasil. A produção, que se encerra oficialmente no dia 5 de setembro, reúne uma equipe de excelência: a direção de arte é assinada por Vanessa Rodrigues, a fotografia é comandada por Joanna Ramos, Thaíse Machado atua como consultora artística e a atriz e preparadora Tatiana Tibúrcio lidera a preparação de elenco, garantindo rigor histórico e uma estética potente e sensível.
Inspirado em fatos reais, o filme narra a trajetória de Adão Caetano, um lanceiro negro cuja busca por dignidade expõe as contradições dos líderes republicanos do Rio Grande do Sul. O enredo tem como pano de fundo o Massacre de Porongos, ocorrido em 14 de novembro de 1844, quando tropas compostas majoritariamente por soldados negros foram emboscadas e dizimadas. Um trauma histórico pouco elaborado na memória nacional.
No centro da narrativa estão Emílio Farias, no papel de Adão Caetano, e Samira Carvalho, que divide com ele o núcleo central da trama. Em entrevista exclusiva, o ator Emílio Farias refletiu sobre o desafio de dar vida a um personagem que simboliza não apenas uma trajetória individual, mas também a memória de um povo silenciado. Para ele, participar do filme é um encontro pessoal e ancestral:
“O Adão é muito especial para mim também por uma questão pessoal: ele carrega o nome do meu avô paterno, a quem não conheci em vida. Dar corpo e voz a esse personagem é como realizar um encontro e um sonho, além de reafirmar que nós, pessoas negras, também construímos este Estado e este País. O Adão luta por liberdade em tempos hostis, luta para ser quem ele deseja ser em plenitude. Representar essa busca é, para mim, um movimento profundo e transformador.”
Farias destaca que viver Adão é uma tarefa que exige cuidado e consciência histórica. Embora o massacre de Porongos esteja documentado, ainda é pouco conhecido no Brasil.
Entre o herói e o sobrevivente “Contar a história dos Lanceiros Negros é estourar bolhas, é fazer com que essa memória chegue além dos movimentos que sempre a preservaram. Se deixarmos apenas os outros contarem, a verdade nunca chega inteira. É nosso dever narrar com a nossa voz. Para mim, dar vida a Adão é também uma forma de honrar a luta e a vida desses homens que batalharam pela liberdade.”
Ao ser questionado sobre como enxerga seu personagem, Farias problematiza a ideia de heroísmo. “A palavra ‘herói’ é uma armadilha. Costuma colocar as pessoas em uma posição idealizada, polarizada, que não dá conta da complexidade da vida. Prefiro ver o Adão como um ser humano, com suas luzes e sombras. Mas é evidente que há um heroísmo na sobrevivência. Talvez o maior heroísmo de pessoas negras, ontem e hoje, seja sobreviver em um mundo que constantemente tenta limitar sua existência. Então, mais do que chamá-lo de herói, prefiro dizer que ele é um sobrevivente, e que nesse ato de sobreviver reside uma grandeza.”
O arco de frustração Um dos pontos mais intensos da preparação do ator está em lidar com o desencontro entre expectativa e realidade. “Esse é talvez o arco mais dramático do personagem: a frustração. O Adão começa movido pela esperança, mas ao longo da trama vai percebendo que a liberdade prometida não se concretizará. Mostrar esse sol que se apaga é um desafio enorme. É preciso construir esse caminho de forma minuciosa, sem perder nenhuma nuance, porque ele não diz respeito apenas ao Adão, mas a gerações inteiras. Por isso, digo que o personagem principal, no fim das contas, é o episódio histórico em si.”
O processo de preparação também envolve uma entrega física e espiritual. O ator relata a conexão com a ancestralidade durante os treinos e ensaios. “Fizemos aulas de equitação, por exemplo, que nos aproximaram da lida dos Lanceiros, além das intensas sessões de preparação corporal com a Tati (Tatiana Tib[urcio) na Casa de Cultura Mario Quintana. Foram momentos de entrega total, de gastar energia, de se deixar atravessar pelo ofício. Tudo isso fez parte da construção e nesse mergulho sinto que a ancestralidade está sempre presente, nos guiando.”
Um gesto de justiça Para Farias, “Porongos” é mais do que um filme histórico: é uma reparação simbólica. “O sentimento maior é de responsabilidade. Não é fácil lidar com uma história que nos atravessa tanto, mas sinto também que estamos diante de um gesto de justiça. É como corrigir uma distorção da memória: colocar os Lanceiros no lugar que merecem, como parte essencial da história do Brasil. Gosto de lembrar um provérbio iorubá que diz: ‘Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje’. É isso que estamos fazendo: lançando hoje uma pedra que corrige o passado. É dar voz, corpo e espaço para aqueles que foram silenciados.”
Um olhar premiado para a história Com mais de 20 anos no audiovisual, Diego Müller construiu uma carreira sólida como diretor, roteirista e produtor. Entre seus trabalhos no cinema, destacam-se Cortejo Negro (2008), prêmio de Melhor Direção no Festival de Gramado, A Invasão do Alegrete (2009), vencedor dos Kikitos de Melhor Roteiro e Melhor Ator, e o documentário Bandoneando (2022), exibido em festivais nacionais e internacionais. Em 2024, codirigiu Infinimundo, vencedor do Kikito de Melhor Filme Júri Popular no 53º Festival de Gramado.
“Porongos” foi contemplado no Edital Sedac/LPG nº 16/2023 – Despesa Financiada pela Lei Complementar 195/22 (LPG). O projeto segue em captação por meio da Lei do Audiovisual e está aberto a coproduções e parcerias estratégicas — ampliando sua capacidade de circulação e impacto nacional e internacional.
FICHA TÉCNICA: “Porongos” Direção e Roteiro: Diego Müller Direção de Arte: Vanessa Rodrigues Direção de Fotografia: Joanna Ramos Consultora Artística: Thaíse Machado Preparação de Elenco: Tatiana Tibúrcio Figurino: Carol Scortegagna Som: Cleverton Borges Produtor: Pablo Müller Produção Executiva: Laura Moglia Direção de Produção: Deise Chagas |
SERVIÇO- Longa-metragem de ficção sobre a Revolta dos Farrapos sob a perspectiva dos Lanceiros Negros - Período de filmagens: até 05 de setembro de 2025 - Locações: Bagé e Aceguá (RS) - Realização com recursos do Edital SEDAC/LPG nº 16/2023 – Lei Paulo Gustavo. - O projeto segue em captação via Lei do Audiovisual, aberto a coproduções e parcerias estratégicas
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