Quilombos rurais do Litoral gaúcho finalizam inventário sobre patrimônio imaterial
Uma reunião intercomunitária na terça-feira (02/12) consolidou a solicitação de Registro de Patrimônio Cultural Imaterial, das comunidades quilombolas do Litoral Médio gaúcho. Representantes de dez quilombos rurais participaram do encontro na Comunidade Quilombola de Casca, em Mostardas.
Foram dois anos de preparação, pesquisa e discussões. O trabalho resultou na elaboração de um inventário, que contém os saberes da agricultura e expressões de fé destas comunidades. Agora, o documento será encaminhado ao governo estadual, solicitando o registro, que poderá reconhecer suas tradições rurais como patrimônio imaterial do Estado.
A Emater/RS-Ascar, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) e a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) participaram de todo processo de mobilização e elaboração de inventário, protagonizado pelas comunidades de Morro Alto (Maquiné e Osório), Costa da Lagoa (Capivari do Sul), Limoeiro (Palmares do Sul), Casca e Beco dos Colodianos (Mostardas), Vó Marinha e Vovô Virgilino (Tavares) e Quilombo Vila Nova (São José do Norte).
Entre as referências culturais inventariadas estão roças, hortas e variedades crioulas, culinária tradicional, plantas medicinais, ensaios de promessa, confecção artesanal de instrumentos musicais, Terno Junino, parteiras, benzedeiras, causos de assombração e Festa de Nossa Senhora dos Navegantes.
Francisca Dias nasceu no Morro Alto, atualmente é a Rainha Ginga do Maçambique de Osório e esteve em Mostardas no encontro. “Quilombo sempre existiu, então não precisa ser reconhecido, mas nesse momento o documento fala mais alto, então acho que é uma importância muito grande”, afirmou. Já o anfitrião Luís Lopes Rosa, da comunidade de Casca, disse que o evento trouxe muitos benefícios, por reunir a todos, alinhados no mesmo trabalho, na mesma preservação da natureza. “Isso acaba nos trazendo um reconhecimento do que a gente quer para essa comunidade, não só para a minha, mas para todos que estão passando por esse processo de evolução", conclui.
Antropólogo do Iphae que conduziu todo o processo de inventário, Yves Seraphim declarou que o encontro foi uma etapa muito importante para a patrimonialização das referências culturais quilombolas no Rio Grande do Sul. A ação devolutiva consolidou uma publicação que deve sair em breve, em versão digital e física. "O que é mais importante é que a gente está discutindo com os representantes das dez comunidades quilombolas do Litoral Médio, o que eles querem efetivamente, qual conjunto de referências eles acham importante ser patrimonializado", diz.
Presidente da Associação Quilombola do Limoeiro, Vera Lucia Silva da Silveira recorda sua vivência familiar. "Desde pequena, me criei numa casa feita de junco e barro. Eu acho muito importante as crianças saberem a origem da avó deles. Que não se perca essa origem, porque foi uma origem bonita, a gente tem muito orgulho. Os meus irmãos não sabiam o que era um brinquedo, eles pegavam barro para fazer os cavalinhos, os boizinhos, era tão bonito. Me criei numa roça, a gente trabalhava com a taquara para fechar a roça, pois a gente nem sabia o que era arame”, conta. Vera ficou satisfeita com a reunião das comunidades em um esforço coletivo. “O quilombo está aqui, o quilombo existe, nós somos resistentes, vamos constituir um mundo melhor para os nossos filhos assim, ainda com as nossas origens”, afirma.
Assessoria de Imprensa da Emater/RS-Ascar













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