Eventos extremos no Sul: como a perspectiva histórica ajuda a entender o presente

Eventos extremos no Sul: como a perspectiva histórica ajuda a entender o presente
Professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) - Campus Chapecó, Pedro Murara,
 

Em minissérie produzida pelo Jornalismo da UFFS, especialistas da Universidade que discutem como El Niño, ocupação do território e desinformação ampliam os desafios diante dos eventos climáticos.

Na primeira matéria, o doutor em Geografia, professor da UFFS e presidente da Associação Brasileira de Climatologia, Pedro Murara, apresenta dados históricos que auxiliam na compreensão dos eventos extremos que têm atingido a região Sul do País.

 

UFFS - A sucessão de ciclones, chuvas intensas, alagamentos e ventos fortes que atingem a Região Sul produzem uma sensação difícil de evitar: a de que estamos diante de fenômenos que antes não faziam parte da realidade de quem vive por aqui. Nas redes sociais, imagens de ruas inundadas, destelhamentos, alertas meteorológicos e registros feitos pela própria população se sucedem quase em tempo real e ajudam a ampliar essa percepção.

Um levantamento elaborado pelo professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) - Campus Chapecó, Pedro Murara, a partir de dados do Atlas Digital do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MDR), reúne registros de desastres ocorridos na Região Sul entre 1991 e 2025. “Os dados mostram que vendavais e ciclones estão longe de ser fenômenos estranhos à história recente da região. No período analisado, foram aproximadamente 3,23 mil registros, correspondentes a 14,51% de todos os protocolos de desastres. Estiagens e secas aparecem em primeiro lugar, com 29,27%, seguidas pelas enxurradas, com 19,93%, e pelas chuvas intensas, com 16,03%. Somados, estiagens e secas, enxurradas, chuvas intensas e vendavais e ciclones representam aproximadamente 80% dos registros de desastres ocorridos nos três estados do Sul ao longo da série histórica”, detalha Murara, que é doutor em Geografia e presidente da Associação Brasileira de Climatologia.

O levantamento revela ainda uma característica que pode parecer contraditória. A Região Sul convive historicamente tanto com eventos relacionados ao excesso de água quanto com aqueles provocados pela sua falta. Enquanto estiagens e secas são o tipo de desastre mais registrado, enxurradas, chuvas intensas, inundações, vendavais, ciclones e granizo formam outro conjunto expressivo de ocorrências. Os dados mostram que praticamente todos os registros estão relacionados à dinâmica da atmosfera, da precipitação, da disponibilidade hídrica e da circulação da água na superfície.

No Rio Grande do Sul, essa característica é ainda mais acentuada. Estiagens e secas respondem por 41,63% dos registros estaduais, enquanto enxurradas representam 16,49%; chuvas intensas, 14,04%; e vendavais e ciclones, 11,61%.

Segundo Murara, a elevada incidência desses desastres resulta de uma combinação de fatores. “A posição geográfica do Sul favorece o encontro de diferentes sistemas atmosféricos; a região recebe grande quantidade de umidade e apresenta condições para precipitações intensas; e características do relevo e da rede hidrográfica também influenciam os impactos produzidos pelas chuvas. El Niño e La Niña acrescentam variabilidade a essa dinâmica”, explica o professor.

Mas há outro componente fundamental: a ocupação do território. Como sintetiza Murara, “o clima produz perigo. A sociedade transforma o perigo em desastre”. Isso significa, segundo o professor, que “compreender um desastre exige olhar não apenas para o fenômeno meteorológico, mas também para o território onde ele ocorre, para as populações expostas e para suas condições de vulnerabilidade. Os impactos acumulados ajudam a dimensionar essa questão. Entre 1991 e 2025, os desastres registrados na Região Sul deixaram 802 mortos, 3,5 milhões de pessoas desabrigadas ou desalojadas e mais de 15,6 milhões diretamente afetadas”, comenta. 

Para Murara, é justamente aí que está uma das contribuições de observar os desastres a partir de uma perspectiva histórica. Existe um histórico que mostra que eles já ocorriam. Entretanto, reconhecer esse histórico, não significa considerar que as condições permanecem as mesmas. A maior ocupação das áreas urbanas e as transformações realizadas nesses espaços interferem na maneira como um fenômeno climático se converte em desastre. “Há dez anos, qual era a quantidade de pessoas que viviam naquela área e qual é hoje? Aumentou na área urbana. Tem mais impermeabilização do solo, então a água não infiltra, ela escorre muito mais rápido para os canais fluviais, para o rio, e vai dar inundação mais rápido que antes”, exemplifica.

A esse cenário soma-se a atuação do El Niño. Murara destaca que o fenômeno está associado a uma maior probabilidade de aumento das chuvas no Sul. Assim, eventos que possuem precedentes históricos ocorrem hoje sobre territórios mais ocupados e modificados e sob uma condição climática que pode favorecer maiores precipitações.

Olhar para o passado, nesse sentido, não significa dizer que o presente é apenas uma repetição. A série histórica ajuda a reconhecer padrões de risco, enquanto as transformações do território e as condições climáticas atuais ajudam a explicar por que eventos conhecidos podem resultar em consequências diferentes — e potencialmente mais graves.

Leia outra matéria em que o professor Murara explica sobre riscos de um El Niño intenso no Sul do Brasil: https://uffs.edu.br/uffs/notcias/uffs-na-rede-pesquisador-da-uffs-fala-sobre-riscos-de-um-el-nio-intenso-no-sul-do-brasil