A Literatura como Ponto de Encontro, por Neivo A T Fabris. Edição 06/11/2026

A Literatura como Ponto de Encontro, por Neivo A T Fabris. Edição 06/11/2026

 

 

A Literatura como Ponto de Encontro

 

O livro, por sua própria natureza, é um objeto que convida ao recolhimento. Lemos no silêncio do quarto, no recôndito das bibliotecas ou na penumbra discreta das livrarias. No entanto, há mais de sete décadas, o Rio Grande do Sul insiste em subverter essa lógica doméstica para realizar um dos rituais coletivos mais bonitos do país: levar a literatura para o olho da rua.
Quando olhamos para o cenário nacional, o modelo tradicional das feiras literárias brasileiras costuma evocar grandes pavilhões fechados, catracas e ingressos pagos, como ditam as megaproduções das Bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro. São estruturas impressionantes, sem dúvida, mas que operam sob a lógica do espetáculo contido.

II - No Sul, a história decidiu tomar outro rumo. Desde que o jornalista Say Marques fincou as primeiras bancas na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, ininterruptamente desde 1955, o ecossistema do livro gaúcho assumiu uma vocação profundamente democrática, ao ar livre e sem barreiras, sob o lema inesquecível de que "a livraria vai ao povo".
Essa teimosia poética de ocupar o espaço público não ficou restrita à capital; ela se espalhou como semente pelo interior, ganhando contornos próprios em cada comunidade.

III - Um exemplo vivo e pulsante dessa resistência cultural acontece na próxima semana em Getúlio Vargas. Com a abertura confirmada para a manhã de terça-feira, dia 10 de novembro, o Calçadão da Praça Flores da Cunha se tornará o coração da Feira do Livro. O evento, que chega à sua histórica edição comemorativa, traz um slogan que é também um manifesto de orgulho: “Getúlio Vargas, Uma Cidade Leitora”. Ao adotar o tema “Getúlio Vargas: 91 Anos de História e Literatura”, a feira local cumpre o papel mais nobre desses encontros: entrelaçar o incentivo à leitura com a própria identidade e memória do município. Essa construção coletiva ganha corpo institucional sendo uma iniciativa da Prefeitura de Getúlio Vargas, por meio da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desporto.

IV - Para dar a densidade necessária a esse resgate, o evento conta com a parceria fundamental da Academia Getuliense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Getúlio Vargas, entidades que zelam pelas letras e pela preservação da nossa trajetória. Essa união de forças transforma o calçadão em um território de vivências plurais. Não se trata apenas de comercializar páginas, mas de cruzar gerações de crianças, jovens e adultos por meio de atividades integradas com escolas, artistas locais e instituições regionais que mostram que a literatura respira junto com o teatro, a música e as artes visuais.

V - A maturidade cultural de um município também se mede pelas escolhas de suas homenagens. Ao consagrar o professor Jairo Gallina como patrono, Getúlio Vargas reconhece uma trajetória inteiramente dedicada à educação e à vida cultural da região. Ao mesmo tempo, ao render tributos a Luis Fernando Veríssimo - um mestre da crônica nacional -, a praça floresce como ponte entre o regional e o universal. Essa sinergia ganha ainda mais força nos encontros marcados com escritores como Pedro Guerra, Eliandro Rocha e Adriel Ferreira, que durante três dias vão desmistificar o fazer literário diretamente com a comunidade.

VI - No fim das contas, a crônica das feiras de livros gaúchas - da imponente Praça da Alfândega ao acolhedor Calçadão da Praça Flores da Cunha - é a prova de que este povo se recusa a enxergar a leitura como um artigo de luxo. Em tempos de telas onipresentes e conexões virtuais efêmeras, a praça pública física continua sendo o nosso maior ponto de encontro. Que os livros continuem ganhando a rua em Getúlio Vargas, porque ocupar o chão da praça com poesia, história e conhecimento sempre foi, e sempre será, o nosso maior ato de liberdade.

Curtas

# A cassação do vereador Juliano Arend (PSDB)  pelo TJRS deixa um aviso claro: a imunidade parlamentar não é salvo-conduto para o racismo, especialmente quando a ofensa é amplificada ao vivo pelas redes sociais.
# Ao proferir ofensas racistas em uma sessão da Câmara de Ernestina, transmitida pelo Facebook, o agora ex-parlamentar transformou o espaço público em vitrine do preconceito, tornando a perda do mandato a única resposta institucional cabível.
# O racismo transmitido em tempo real atinge não apenas a vítima, mas degrada toda a sociedade, justificando a firmeza do Tribunal de Justiça em punir exemplarmente quem usa a internet para ecoar a discriminação.
# Condenar o preconceito velado em falas cheias de codinomes e confirmar a perda do cargo mostra que a Justiça gaúcha aprendeu a monitorar a gravidade do racismo na era digital.
# A Prefeitura de Getúlio Vargas anunciou um processo seletivo para formar o Conselho de Usuários dos Serviços Públicos Municipais.
# O grupo vai fiscalizar, avaliar e sugerir melhorias nos serviços da cidade, acompanhar a qualidade dos serviços públicos e  participar da avaliação do atendimento à população.
# De igual modo, propor ideias e melhorias e ajudar a definir regras para um atendimento mais eficiente.
# O Conselho terá oito membros (titulares e suplentes), quatro representantes do Poder Executivo (Secretarias de Obras, Saúde, Educação e Desenvolvimento Econômico)
# E quatro  são representantes da população (2 de pessoas jurídicas e 2 de pessoas físicas).
# O trabalho é voluntário. Os candidatos não podem ter vínculo com órgãos públicos ou concessionárias e é obrigatório morar no município.

Dito & Feito

Quem acompanha os bastidores da política regional sabe que o dinamismo é a regra, e o MDB de Getúlio Vargas acaba de consolidar um movimento estratégico importante no xadrez estadual. Deliane Assunção Ponzi (MDB), nome central do partido na região - com o recall de sua atuação como vereadora, a candidatura à prefeitura em 2024 e a recente campanha a deputada federal neste ano -, assumiu nesta semana um posto estratégico na Casa Civil do Governo do Estado, integrando o Gabinete dos Prefeitos. A escolha não é por acaso. Ao surgir em registro oficial ao lado de Cássio Nunes Soares, coordenador do Gabinete Especial de Articulação dos Prefeitos do Rio Grande do Sul, Deliane não apenas chancela seu trânsito na capital, mas leva para o coração do governo do Estado a bagagem de quem atuou nos últimos anos como assessora parlamentar, conhecendo detalhadamente as demandas e gargalos das prefeituras do Norte gaúcho. Para Getúlio Vargas e a região Norte, a nomeação representa um canal direto e qualificado com o Centro Administrativo Fernando Ferrari. Para Deliane, é a consolidação de sua liderança regional e um posicionamento de peso para os embates políticos que o futuro reserva. (Foto: Cassio Nunes Soares Gabriel Souza - Casa Civil do RS)

Foi notícia há 30 anos

Se você acha que o tempo voa, prepare-se: a edição do jornal de 1º de novembro de 1996 já completou 30 anos. Olhar para aquelas páginas hoje é uma mistura deliciosa de nostalgia com um verdadeiro choque de realidade.
Para começar, o município de Sertão era um jovem adulto celebrando 33 anos de emancipação. No mundo dos negócios, a ACCIAS lotava palestra para explicar a febre da "Qualidade Total", enquanto o PPB debatia os rumos da política em Getúlio Vargas.
Mas o que chama a atenção mesmo é a espiadinha que a coluna Contexto deu nas contas públicas. Em tempos de Plano Real recém-nascido, os salários do primeiro escalão da Prefeitura parecem piada hoje em dia: o prefeito ganhava R$ 2.116,77, os secretários recebiam R$ 1.620,35 e os vereadores levavam R$ 740,78 para casa.
Nem tudo era só cifrão. Aprovava-se ali o convênio com o Lar dos Idosos, mostrando que o lado solidário da nossa comunidade vem de longe.
Para fechar com chave de ouro, o anúncio da loja Ponto Útil cravava: "centenas de itens por R$ 1,99". Uma época em que a gente entrava na loja com uma nota de dez reais e saía carregado de sacolas. Que saudade!