A Voz do Leitor - Marcar um cidadão ou comércio como inimigo: o eco sombrio do nazismo que ronda a nossa porta
Marcar um cidadão ou comércio como inimigo: o eco sombrio do nazismo que ronda a nossa porta
A eleição termina quando as urnas são apuradas. Ledo engano. A prorrogação da disputa virou um desserviço à democracia e um flerte com regimes nada republicanos. Desde o fim da apuração, municípios do Sul veem circular listas de boicote contra pequenos comerciantes e prestadores de serviços expostos publicamente por suas escolhas políticas. Usa-se a roupagem da liberdade de expressão para asfixiar o sustento de quem pensa diferente. Não é só intolerância: essa conduta flerta com a criminalidade e fere preceitos basilares da Constituição.
A história nos lembra onde isso começa. Na Alemanha de Hitler, o nazismo iniciou sua escalada colando mensagens de ódio e estrelas em vitrines de lojas judaicas para proibir compras, método inicial de segregação que mais tarde culminou nas deportações e no horror dos campos de concentração. Guardadas as proporções de tempo e escala, o método de expor, estigmatizar e tentar destruir o pequeno comércio e a vida de pessoas é a semente da mesma perversidade. Isso não cabe na democracia, muito menos na humanidade.
As cidades gaúchas e catarinenses ergueram-se pela cooperação de imigrantes, muitos deles refugiados do fascismo e do nazismo. O progresso do interior dependia da união de esforços, da convivência no mesmo espaço e do respeito mútuo. Agora, promover o adversário como inimigo a ser aniquilado financeiramente põe em risco a própria sustentação nos municípios. O combustível disso é o ódio à diferença: ao adversário, ao vizinho e até a familiares. E o mais desalentador é que muitos se dizem cristãos e defensores da família. Pergunto: Que Cristo é esse? Que família é essa?
A redemocratização exigiu esforço coletivo e requer aperfeiçoamento constante. Mas a ilusão autoritária ainda ronda as urnas, como se houvesse saudade de um passado não vivido, revivido por relatos nostálgicos e afetos distorcidos por memórias não alimentadas por verdades.
A cidadania reside na capacidade de conviver na divergência; viver entre iguais é conto de fadas mal contado da infância. Urge desarmar espíritos revoltados, repudiar listas de perseguição disfarçadas de pseudoliberdade de expressão e lembrar que a dignidade humana, o respeito e o trabalho estão acima de qualquer resultado eleitoral. A vida está acima de qualquer diferença aquecida por ódio e intolerância.
Gerônimo Paludo - Psicólogo Clínico. Pós-graduado em Saúde da Família e da Comunidade pela UNISINOS. Pós-graduado em Gestão Pública Municipal pela UFRGS. Pós-graduado em Psicologia Cognitivo-Comportamental pela PUC-RS. Mestrando em Saúde e Desenvolvimento Humano pelo La Salle.













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