O benevolente Abaúna, vez por outra, mostra sua ira - Contexto / Coluna da edição do dia 10 de maio de 2024. Neivo A T Fabris
O benevolente Abaúna, vez por outra, mostra sua ira
Nos mapas do início do século passado ele era descrito como Rio dos Índios. A experiência do engenheiro Severiano de Souza e Almeida, responsável pela instalação da Colônia Jaguari, na região central do RS, o motivou no ano de 1909 na escolha do local para o início de um novo empreendimento estatal. Em que pese estar afastado cerca de cinco mil metros da Estação Erechim da estrada ferro, que seria inaugurada em maio de 1910, o chefe da Comissão de Terras da Colônia Erechim instalou o marco (ainda preservado no patamar mais alto da Praça Flores da Cunha) num local aprazível, cercado de araucárias e dotado de uma rica hidrografia.
II
Além de garantir o abastecimento de água potável, e em mais de cento e dez anos foram raras as vezes em que ela faltou, pesou na escolha do local, que deu origem a cidade de Getúlio Vargas, a força motriz do rio posteriormente rebatizado de Abaúna. As engrenagens da maior serraria que forneceu a madeira necessária para as edificações públicas, residenciais e comerciais ao longo das primeiras décadas, eram movidas pelas suas águas. O mesmo com as correias do moinho de milho e trigo. Também foi determinante para a escolha do local da instalação do Curtume Killing & Holzbach no ano de 1919. O mesmo se deu com outros empreendimentos que dispensam serem nomeados.
III
Ainda nos anos iniciais da colonização, as autoridades locais e os moradores descobriram a força de suas águas. Não por acaso as áreas mais altas passaram a ser escolhidas para a construção das casas. A grande enchente de 1928, e depois a de 1941, considerada a maior até a poucos dias, também causou destruição na sede do município que tinha pouco mais de seis anos. Os registros fotográficos de ambas mostram o rastro da destruição. E ocorreram outras tantas, até a do ano de 1992, esta filmada por Vilson Vani e registrada nas páginas do jornal A Voz da Serra Getúlio Vargas.
IV
Para evitar novas enchentes e prejuízos, o poder público municipal realizou estudos e foi buscar recursos para a realização das obras. E não faltaram sugestões naqueles anos iniciais da década de noventa do século passado, fossem adequadas ou estapafúrdias. A caixa do rio foi alargada e onde foi possível ser rebaixada. As colunas das pontes localizadas nas Ruas Alexandre Bramatti e Mj. Cândido Cony foram retiradas, para evitar que troncos e galhos destruíssem seu fluxo. As galerias do esgoto pluvial foram limpas e um canal foi construído na Rua Mj. Cândido Cony, entre as Ruas Albino Fernando Holzbach e Leonardo Lang. E, desde então, as autoridades municipais realizam apenas ações de prevenção.
V
Desde então ocorreram outras tantas, como a de setembro de 2023 e as duas deste ano, uma em janeiro e outra há menos de uma semana. As águas do Abaúna alagaram as ruas mais baixas dos bairros XV de Novembro, Navegantes e do centro. Após uma longa e insone madrugada, o sábado (04) foi de muito trabalho. A tragédia, que também atingiu centenas de cidades e municípios, não teve precedentes, apontam os estudiosos. O mesmo com a solidariedade de milhões de pessoas de diferentes quadrantes do RS, do Brasil e até de países vizinhos.
VI
O crescimento da cidade de Getúlio Vargas nos últimos anos, com a construção de casas e edifícios e a expansão dos loteamentos é alvissareiro, mas exige cada vez mais obras de infraestrutura por parte do poder público. O marco legal do saneamento, que modifica uma série de normas do setor, foi aprovado pelo Congresso Nacional em 2020 e está em curso. Se por um lado a rede da Corsan abastece 100% da área urbana, por outro, o tratamento de esgoto não é realizado. Mas este, e tantos outros temas relevantes devem ser prioritários na campanha que se aproxima.













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