Como a IA e tecnologias de autonomia criam tratamentos sob medida para os pacientes

Como a IA e tecnologias de autonomia criam tratamentos sob medida para os pacientes
Antonio Kalil, cirurgião e diretor-médico e de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre Foto: Igor Sperotto

De órteses produzidas por impressão 3D a sistemas capazes de apoiar decisões clínicas, o avanço tecnológico cresce em centros de pesquisa e hospitais para melhorar a vida dos pacientes

José Araújo segura a escova de dentes com firmeza e a leva até a boca. O gesto parece banal, mas, para o morador de Porto Alegre, aos 45 anos, representa uma conquista construída ao longo de meses de reabilitação após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Até pouco tempo, ele dependia de ajuda até mesmo para tomar um copo d’água. Hoje, com o auxílio de uma órtese produzida por escaneamento 3D e modelagem digital, ampliou os movimentos do punho e recupera gradualmente a autonomia.

José, nome fictício, integra um grupo de dez pacientes que participaram dos testes clínicos de uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), exemplo de como o avanço tecnológico e a inteligência artificial começam a transformar a vida de pessoas que dependem de tratamentos complexos e processos de reabilitação.

“Temos milhares de pessoas só no Rio Grande do Sul que convivem com condições que podem demandar o uso de órteses e outros recursos de tecnologia assistiva para membros superiores. São pacientes com sequelas de AVC, lesão medular, traumatismo cranioencefálico, doenças neurológicas e condições musculoesqueléticas”, afirma o coordenador do Laboratório de Design e Seleção de Materiais (LDSM) e professor da Ufrgs, Fabio Pinto da Silva.

Embora ainda seja comum associar a inteligência artificial a robôs ou sistemas futuristas, a tecnologia já está presente na rotina da saúde. Ela auxilia na gestão hospitalar, na análise de informações clínicas, na personalização de dispositivos assistivos e no desenvolvimento de ferramentas voltadas à segurança dos pacientes e à eficiência dos serviços.

Dados divulgados em maio pela 12ª edição da pesquisa TIC Saúde, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostram que 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros já utilizam algum tipo de aplicação baseada em inteligência artificial. O índice sobe para 31% entre hospitais e unidades com mais de 50 leitos e alcança 29% nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico.

Segundo a coordenadora de projetos de pesquisa do Cetic.br, Luciana Portilho, a adoção ocorre principalmente em instituições com maior complexidade assistencial, grande volume de dados e infraestrutura tecnológica mais robusta. “Podemos afirmar que a principal realidade hoje é o uso da IA para apoiar a organização dos serviços de saúde, automatizar processos e auxiliar profissionais em tarefas administrativas e de gestão da informação”, observa.

Da gestão à assistência

A percepção da IA como ferramenta de apoio à gestão e à assistência já é realidade em instituições como a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. O cirurgião e diretor-médico e de Ensino e Pesquisa da instituição, Antonio Kalil, destaca que a tecnologia está presente nas duas frentes. “A incorporação da IA tem sido de grande auxílio no acompanhamento de autorizações de internação, tempo de permanência, fluxo de faturamento e outros processos de gestão. Na assistência, ela pode apoiar desde a anamnese e a análise de exames até a definição de condutas clínicas”, afirma.

Apesar dos avanços, desafios importantes permanecem. Custos elevados, escassez de profissionais capacitados, qualidade dos dados, integração entre sistemas e proteção de informações sensíveis estão entre os principais obstáculos à ampliação do uso dessas tecnologias.

Na avaliação de Kalil, os ganhos mais imediatos estão relacionados à segurança e à eficiência dos serviços. “Hoje, a IA já é utilizada na Santa Casa para aumentar a segurança das prescrições médicas, auxiliar na avaliação da gravidade dos pacientes, apoiar a marcação de procedimentos, a análise de exames e até a seleção de participantes para pesquisas clínicas. As principais vantagens observadas são segurança, agilidade e mais tempo para o contato da equipe médica com o paciente”, enfatiza.

Diagnóstico precoce ganha reforço

Entre as aplicações com maior potencial de impacto, está o uso da inteligência artificial para antecipar diagnósticos. Há cerca de dois anos, a Santa Casa desenvolve, em parceria com a Procempa, um projeto de validação de ferramentas de IA propostas pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) para identificar precocemente câncer de mama e de pulmão por meio da análise de exames de imagem.

Conforme Kalil, a ferramenta voltada ao câncer de mama entra agora em etapa de estudo clínico, testado em pacientes. “Os resultados preliminares indicam que alterações observadas em mamografias poderiam permitir o diagnóstico até seis anos antes do surgimento clínico da lesão”, explica.

O mesmo protocolo está sendo aplicado às tomografias de tórax, com o objetivo de identificar sinais precoces associados ao desenvolvimento do câncer de pulmão. A expectativa é que a tecnologia contribua para ampliar as chances de tratamento e sobrevida dos pacientes.

Tecnologias sob medida para cada paciente

Muito antes de chegar aos hospitais, a inovação nasce nos laboratórios de pesquisa. Na Ufrgs, um dos projetos mais avançados nessa área vem sendo desenvolvido pelo LDSM, coordenado pelo professor Fabio da Silva. O grupo trabalha há mais de duas décadas com aplicações que unem design, engenharia e saúde e, atualmente, desenvolve órteses personalizadas para membros superiores produzidas por impressão 3D, utilizadas por pacientes como José Araújo.

O processo começa com o escaneamento tridimensional do braço do paciente. A partir das informações captadas, algoritmos de inteligência artificial otimizam o design, prevendo os pontos de maior esforço mecânico, e softwares de modelagem digital criam uma órtese adaptada à anatomia específica de cada pessoa. O equipamento é então produzido por impressão 3D.

A pesquisa surgiu a partir da experiência clínica da terapeuta ocupacional Kelin Luana Casagranda, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Design. No atendimento a pacientes em reabilitação, ela observava dificuldades recorrentes relacionadas ao acesso, ao custo, ao conforto e ao tempo necessário para produção das órteses convencionais.

O estudo desenvolveu um fluxo digital capaz de reduzir etapas manuais, aumentar a precisão dos dispositivos e melhorar a adaptação dos usuários. Além disso, resultou na criação de um equipamento inovador para captura tridimensional da anatomia dos membros superiores, facilitando o atendimento de pessoas com limitações motoras.

Até o momento, dez pacientes participaram dos testes clínicos. Os resultados apontaram elevados índices de satisfação, especialmente em aspectos como conforto, leveza, ventilação e ajuste personalizado.

“Embora o estudo tenha sido realizado com um grupo inicial de participantes, o potencial de impacto é muito maior. O método desenvolvido poderá ser incorporado por centros de reabilitação, hospitais e clínicas, ampliando o acesso a órteses personalizadas e beneficiando um número cada vez maior de pessoas que necessitam de tecnologia assistiva”, salienta Kelin Casagranda.

Os impactos vão além do uso do dispositivo

De acordo com os pesquisadores, a maior adaptação favorece a adesão ao tratamento e pode ampliar a independência dos pacientes em atividades diárias, além de contribuir para a participação social e profissional.

O potencial de expansão também chama atenção. A equipe analisou dados da Associação Canoense de Deficientes Físicos (Acadef), que atende mensalmente mais de 500 usuários provenientes de mais de 20 municípios da Região Metropolitana. Aproximadamente 30 pacientes por mês apresentam demanda por órteses para membros superiores, enquanto a lista de espera ultrapassa cem pessoas.

Para Fabio Pinto da Silva, a principal contribuição do projeto é demonstrar que a inovação em saúde pode ser utilizada para tornar tecnologias assistivas mais acessíveis e próximas das necessidades reais dos usuários.

“A inovação faz sentido quando consegue transformar conhecimento científico em soluções que realmente melhoram a vida das pessoas”, afirma.

Reconstrução da autoestima e medicina personalizada

Outra frente de pesquisa desenvolvida na Ufrgs busca utilizar tecnologias digitais para responder a demandas que vão além da reabilitação física. Desde 2018, a professora de Design de Tecnologia Mariana Pohlmann coordena um projeto voltado ao desenvolvimento de próteses mamárias externas personalizadas para mulheres submetidas à mastectomia. A iniciativa combina modelagem tridimensional, fabricação digital e design centrado nas usuárias para criar soluções adaptadas às características e necessidades individuais de cada paciente.

A finalidade não é somente desenvolver um produto, mas também construir uma metodologia que possa ser aplicada futuramente em hospitais, ambulatórios e instituições públicas. “Para muitas mulheres, a mastectomia não envolve apenas uma alteração anatômica. Ela impacta na imagem corporal, na relação com a feminilidade, na escolha das roupas, na vida social e no bem-estar emocional”, ressalta.

Segundo a pesquisadora, o potencial de impacto é significativo porque muitas mulheres não realizam reconstrução mamária imediata ou definitiva, seja por contraindicações médicas, dificuldades de acesso ou escolha pessoal. Nesses casos, a prótese externa personalizada pode representar uma alternativa importante para conforto físico, simetria corporal e autoestima.

Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam para 3.790 novos casos de câncer de mama no Rio Grande do Sul neste ano. Embora esse número não corresponda diretamente à demanda por próteses, ele ajuda a dimensionar a relevância do problema e a necessidade de soluções voltadas à qualidade de vida das pacientes.

Para Mariana, o futuro da inovação em saúde passa necessariamente pela personalização dos cuidados. “A tecnologia precisa estar conectada às necessidades reais das pessoas. O papel do design é justamente aproximar inovação, cuidado e experiência humana”, frisa.

Para Kalil, a capacidade preditiva da inteligência artificial poderá contribuir também para a organização dos sistemas de saúde. “Ao permitir diagnósticos mais precoces e prever a gravidade de doenças, a IA poderá ajudar a organizar melhor as filas de espera, especialmente na saúde pública, priorizando os casos mais graves. Nos serviços de urgência, também poderá auxiliar na identificação dos pacientes que necessitam de atendimento imediato e daqueles que podem ser acompanhados ambulatorialmente”, avalia.

Tecnologia cada vez mais humana

Os exemplos desenvolvidos no Rio Grande do Sul mostram que as tecnologias digitais e a inteligência artificial vêm assumindo um papel cada vez mais relevante na saúde. Apesar de ainda estarem longe de substituir médicos, físicos, enfermeiros e demais profissionais, essas ferramentas já contribuem para agilizar processos, qualificar decisões clínicas, ampliar a segurança dos pacientes e desenvolver soluções personalizadas para diferentes necessidades de tratamento e reabilitação.

Na prática, os avanços mais significativos aparecem na capacidade de organizar informações, reduzir burocracias e apoiar a tomada de decisões. Se nos hospitais a inteligência artificial ainda atua principalmente nos bastidores, nos laboratórios ela já possibilita a produção de órteses, próteses e dispositivos sob medida, capazes de ampliar a autonomia, o conforto e a qualidade de vida de milhares de pessoas. Em comum, as iniciativas têm aa finalidade de utilizar o conhecimento tecnológico para tornar a assistência mais eficiente, segura e centrada nas necessidades humanas.

Aplicações na oncologia também mostram essa simbiose. A física médica Ana Charão, que acompanha há 13 anos a evolução tecnológica da radioterapia, considera a inteligência artificial uma das transformações mais importantes vivenciadas pela área nos últimos anos. Conforme ela, a tecnologia vem trazendo ganhos expressivos de eficiência em etapas fundamentais do tratamento, como desenhar o contorno de órgãos doentes a serem tratados, o planejamento das doses de radiação e os controles de qualidade.

“A IA nos ajuda a avançar em padronização, agilidade e análise de dados, tornando o fluxo de trabalho mais eficiente. Mas isso não reduz a responsabilidade dos profissionais. Cada etapa exige validação criteriosa, interpretação clínica e experiência, especialmente nos casos mais complexos”, constata.

Para a profissional de saúde, os benefícios chegam diretamente aos pacientes, ainda que, muitas vezes, passem despercebidos. A maior eficiência dos processos contribui para reduzir o tempo entre a indicação e o início do tratamento, além de aumentar a consistência e a segurança dos planejamentos terapêuticos. Ana ressalta, porém, que a tecnologia não substitui o elemento mais importante da assistência.

“O que realmente marca a experiência do paciente não é a tecnologia em si, mas a forma como ele é acolhido ao longo desse percurso. A inteligência artificial nos apoia e otimiza processos, mas o cuidado, a escuta e a sensibilidade continuam sendo essencialmente humanos. Quando conseguimos unir tecnologia e humanidade, alcançamos resultados muito mais valiosos.”

 IA chega aos bastidores dos serviços

Se a inteligência artificial ainda avança com cautela nas decisões clínicas, ela já começa a transformar a gestão hospitalar. No Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, modelos de linguagem semelhantes aos utilizados por assistentes virtuais passaram a ser testados em 2025 para apoiar atividades administrativas, auxiliando servidores na elaboração de documentos, análises e respostas a processos internos.

De acordo com a instituição, a principal motivação para adoção da ferramenta foi aumentar a eficiência operacional e reduzir o tempo de execução das tarefas. As sugestões geradas pela IA servem de apoio aos profissionais, que seguem responsáveis pela análise, validação e tomada de decisão. “Anteriormente, o usuário era obrigado a elaborar ou responder a tarefa de forma manual, sem subsídio nenhum. Agora, recebe apoio para a análise e consegue concluir os processos com mais agilidade”, informa o hospital.

Na área assistencial, o GHC desenvolve, em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), um projeto baseado em modelos menores de linguagem (SLMs) voltados à análise de prontuários e evoluções médicas. A instituição também prepara a implantação da plataforma NoHarm.ai, a qual utiliza inteligência artificial para analisar prescrições, identificar possíveis interações medicamentosas, priorizar casos críticos e apoiar equipes de farmácia clínica na prevenção de erros relacionados ao uso de medicamentos.

O avanço, entretanto, ocorre com cautela. O principal desafio apontado pelo hospital envolve a proteção de dados dos pacientes. Como muitos sistemas de IA dependem do envio de informações para servidores externos, a instituição busca alternativas que operem localmente, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), evitando que informações sensíveis deixem sua infraestrutura.

FONTE:

]ORNAL EXTRA CLASSE - 

Por Elstor Hanzen

Publicado em 6 de agosto de 2026