Getúlio Vargas 90 Anos – Crônica de Anissara Zir

Getúlio Vargas 90 Anos – Crônica de Anissara Zir

Vitorino Gonçalves de Lima - Uma vitória sobre o alcoolismo - Por Anissara Zir, A Folha Regional, 24 de janeiro de 2012.

 

Quase todas as cidades têm seus próprios personagens folclóricos. São andantes de rua, que muitas vezes auxiliam os pais a colocarem limites nos filhos. Pode ser que hoje em dia isso não ocorra com certa frequência ou com tanta veracidade. Mas uma vez, essas pessoas realmente botavam medo nas crianças.
Em Getúlio Vargas, vários andarilhos já desempenharam essa função. Muitas vezes, eles podiam até não saber das histórias contadas. Existiram o “Pé Grande”, o “Petri”, o “Doguinho”. Hoje, o “Bobi” é o personagem mais visto nas ruas da cidade e em muitos eventos públicos.
Mas o personagem folclórico que vamos relembrar nesta reportagem especial é Vitorino Gonçalves de Lima, de 74 anos. Mesmo sendo natural de Getúlio Vargas e filho de Delair de Lima, muitas pessoas podem achar que não conhecem essa figura, mas conhecem sim. Seu apelido é Micuim. A foto acima feita na esquina da Rua Jacob Gremmelmaier com a Avenida Severiano de Almeida foi feita no final da década de 1990 quando nosso personagem ainda vivia no abandono.
Ele nasceu no dia 19 de setembro de 1937, em Getúlio Vargas. Analfabeto, foi vítima de maus tratos físicos e morais. Na certidão de interdição, expedida pela juíza Rossana Gelain Silveira Pires, da 2ª Vara Judicial da Comarca de Getúlio Vargas, consta que Micuim é portador de polineuropatia alcoólica e transtornos mentais. Por isso, desde março de 2005, Alceu Natalin Enricone é seu curador.
Sua história
Muitas pessoas perguntam do Micuim. Por onde ele anda. Se ainda está bebendo. Mas poucos sabem a sua história. Quando jovem, e forte, trabalhou numa empresa de transporte de cargas, a Transportadora Sulina. Ao se apaixonar por uma moça, ela o convenceu a ir embora para Porto Alegre, alegando haver mais oportunidades de emprego. Micuim vendeu a casa própria e foi morar na capital gaúcha. Procurou emprego durante três meses, sem nada conseguir.
Um dia, ao voltar para onde morava com a namorada, encontrou a casa fechada. O dinheiro da venda de seu imóvel também havia sumido. Sozinho e abandonado, sem emprego e sem conhecer ninguém, passou a dormir embaixo de pontes e viadutos. Na companhia de andarilhos, começou a beber e apresentar problemas mentais. Meses mais tarde, um motorista de Getúlio Vargas estava a trabalho em Porto Alegre. Reconhecendo o Micuim, trouxe-o de volta a Getúlio Vargas na boleia de um caminhão. Passou a perambular pelas ruas de sua terra natal, sujo, bêbado, maltrapilho.
Mesmo assim, recebia ajuda de muitas pessoas que conheciam a sua história. Com idade mais avançada e também pelo seu aspecto físico e mental, não conseguia emprego. Mesmo com toda a necessidade que passava, não há registros de alguma vez ter praticado uma ação de roubo. Como diz o provérbio “o bom filho a casa torna”, para seus banhos semanais, Micuim ia ao Rio do Pina, região em que viveu sua infância na companhia da mãe e do padrasto. Atropelado por uma moto, quebrou uma perna. Se recuperou, mas ficou com deficiência física. Passados alguns anos, dormindo num abrigo em frente a um bar, onde também recebia comida, foi vítima de uma surra.
Três rapazes bateram na sua cabeça, quebraram seu braço esquerdo e cinco costelas. A Brigada Militar e a administração municipal da época foram chamadas. Após os primeiros-socorros no Hospital São Roque, Micuim foi encaminhado ao Hospital Municipal Santa Terezinha, de Erechim, onde foi necessário colocar platina no braço. Novamente acolhido no Hospital São Roque, permaneceu por cerca de 20 dias para se recuperar da cirurgia e da surra. Nesse período, também se recuperou do vício da bebida. O médico Valdir Sommer e o secretário municipal da Saúde da época, Irineu Queiroz, deram grande auxílio. O advogado Dionisio Morillos e a equipe do Escritório Soliman agilizaram o processo para a aposentadoria do Micuim. A ligação de Micuim com a família Enricone aconteceu de forma natural e vem de anos. As pessoas que faziam doações a ele, fizeram da Enricone Tintas um posto de coleta. Eram roupas, calçados e cobertas. Micuim lembra de Alceu Natalin Enricone quando criança e ainda hoje fala da mãe de seu curador. O nome do patriarca da família Enricone para ser o curador do Micuim foi sugerido pelo advogado Dionisio Morillos.

Hoje, Vitorino Gonçalves de Lima, o Micuim (foto atual), vive bem, com uma vida modesta, mas digna de um ser humano. Não lhe falta comida, nem roupa. Acompanhado por uma cuidadora, ele tem um lar e faz suas higienes diariamente. E o melhor dessa história é que ele nunca mais bebeu uma gota de álcool. Com certeza, é um exemplo de superação na vitória contra o alcoolismo.